Turismo Responsável na Pedra das Caveiras

Descubra o que é Ecoturismo
24/01/2025
 

No alto do Monumento Natural Serra das Torres, em Atílio Vivácqua (ES), a Pedra das Caveiras se consolidou, em poucos anos, como um dos principais atrativos de natureza da região. Trilhas, formações rochosas impressionantes e atividades de aventura colocaram o local no mapa de praticantes de trekking, campistas e condutores de turismo.

 

Mas enquanto o fluxo de visitantes crescia, a estrutura de gestão do atrativo ficou para trás. Sem ordenamento, sem normas claras, com pouca infraestrutura e praticamente nenhum cuidado sistemático com segurança e conservação, o uso turístico passou a gerar sinais evidentes de desgaste. Foi a partir dessa realidade que nasceu o Diagnóstico Situacional do Atrativo Pedra das Caveiras, dentro do Projeto de Ordenamento do Turismo Responsável do MONAST (PROTURES MONAST).

Um projeto piloto para organizar o uso turístico no MONAST

O Ecoturismo valoriza e utiliza de forma sustentável o patrimônio natural e cultural de determinada região. Isso envolve a preservação e conservação dos ecossistemas naturais, como florestas, rios, montanhas, e também a valorização dos aspectos culturais das comunidades locais, como suas tradições, costumes e modo de vida. O objetivo é garantir a proteção desses patrimônios, reconhecendo sua importância e promovendo sua conservação a longo prazo.

O PROTURES MONAST é uma iniciativa que busca equilibrar turismo de natureza, conservação ambiental e segurança da visitação nos atrativos do Monumento Natural Serra das Torres. A proposta é criar um modelo de ordenamento turístico que possa ser replicado em outros pontos da unidade de conservação, sempre com foco em:

  • acessibilidade e logística de acesso
  • segurança dos visitantes;
  • redução de impactos ambientais;
  • geração de renda para a comunidade local;
  • fortalecimento da governança entre proprietários, poder público, instituições e operadores turísticos

No caso específico da Pedra das Caveiras, a SubHike Brasil conduziu um diagnóstico técnico aprofundado, que resultou em um relatório completo com mais de 200 páginas. A síntese disponibilizada ao público reúne os principais resultados, análises e recomendações desse estudo, traduzindo um trabalho robusto em um material mais enxuto e estratégico para tomada de decisão.

Como foi feito o diagnóstico

A abordagem metodológica combinou análise documental, escuta ativa com atores locais e levantamentos de campo.

Na etapa preparatória, foram revisados:

  • documentos normativos e diretrizes do MONAST;
  • registros de reuniões e escutas com proprietários rurais, condutores e instituições;
  • informações do Plano de Manejo da unidade de conservação.

Em campo, a equipe percorreu todo o acesso à Pedra das Caveiras - da estrada de entrada até o cume - dividindo o trajeto em três grandes segmentos:

  1. Segmento 1 - Estrada de acesso
  2. Segmento 2 - Estrada das Caveiras 
  3. Segmento 3 - Trilha das Caveiras 

Para cada segmento foram mapeados:

  • extensão, ganho de elevação e tempo de percurso;
  • grau de dificuldade técnica, com base em normas ABNT para caminhadas e turismo de aventura;
  • condições de leito, barreiras, porteiras e tronqueiras;
  • presença (ou ausência) de sinalização;
  • pontos de risco e gargalos de segurança;
  • passivos ambientais e processos erosivos;
  • potenciais interpretativos (paisagem, fauna, flora, geologia e cultura).

O mapeamento resultou em matrizes de risco, matrizes de intervenção e uma matriz de recomendações gerais – organizadas por prioridade (crítica, alta, média, baixa) e por blocos temáticos (segurança, ambiental, infraestrutura e governança).

 

Os principais desafios identificados no acesso à Pedra das Caveiras

O diagnóstico aponta um quadro claro: a Pedra das Caveiras é um atrativo de alto potencial, mas com baixa maturidade operacional. Em outras palavras, a força da paisagem e da experiência de aventura não é acompanhada, hoje, por um nível mínimo de estrutura e gestão compatível com o volume de visitação.

Entre os desafios mais relevantes, destacam-se:

Acessos precários e intransitabilidade sazonal
As estradas vicinais que levam ao início da trilha somam pouco mais de 3 km, com leito de terra, aclives acentuados, ausência de manutenção periódica, barreiras físicas (porteiras e tronqueiras) e total falta de sinalização. Em períodos chuvosos, alguns trechos se tornam intransitáveis, ampliando a chance de isolamento de visitantes e veículos, e intensificando processos erosivos.

Falta de sinalização e déficit crítico de orientação
Da entrada da propriedade até o início da trilha, não há sinalização indicativa, interpretativa ou regulatória. Isso dificulta a navegação, aumenta a ansiedade do visitante, amplia o risco de conflitos fundiários (por cruzar várias propriedades sem servidão formal) e complica a resposta em emergências, já que não há pontos de referência padronizados para localização.

Trilha hostil e trechos considerados inaptos ao uso público geral
A Trilha das Caveiras, que leva à boca da caverna e ao entorno do cume, apresenta:

  • aclive contínuo e intenso;
  • ausência total de degraus, patamares, corrimãos e manejo de piso;
  • gargalos com leito estreito, raízes expostas e erosão de borda;
  • pontos de gradiente severo, onde o esforço físico e o risco de queda aumentam significativamente.

O relatório identifica, em especial, um trecho de slab – uma laje de rocha inclinada diretamente exposta a um penhasco – classificado como de risco crítico. Na condição atual, o segmento é considerado inapto ao uso público geral, devendo ser interditado ao acesso autônomo até a instalação de estruturas de segurança (como corrimãos ancorados ou passarela técnica).

Ausência de sistema de segurança, comunicação e resgate
Não há sistema de gestão de segurança, plano de resposta a emergências, pontos de emergência identificados, comunicação por rádio ou satélite, nem protocolo de resgate padronizado. Em um ambiente serrano, com trilha difícil e isolamento relativo, isso configura um risco sistêmico: não é apenas um ponto perigoso, mas todo o conjunto – falta de normas, de preparo e de infraestrutura – que aumenta a vulnerabilidade da operação turística.

Passivos ambientais e uso desordenado
O diagnóstico revela um cenário de degradação associado ao uso recreativo sem regras:

  • pichações nas paredes rochosas da caverna;
  • focos de fogueiras em contato direto com a rocha, gerando danos térmicos;
  • presença recorrente de dejetos humanos na cavidade;
  • entalhes irregulares em árvores ao longo da trilha (“blazes”), prejudicando a saúde das espécies.

Esse quadro reforça a urgência de ordenamento turístico, fiscalização, implantação de normas claras de visitação e adoção de princípios de mínimo impacto (Leave No Trace).

Insegurança jurídica e governança fragmentada
Boa parte do acesso cruza propriedades privadas sem servidão de passagem formalizada, e os trechos finais do acesso e da trilha estão integralmente dentro de uma propriedade particular, também sem contrato de uso público. Ao mesmo tempo, a gestão do MONAST envolve diversos atores – IEMA, Prefeitura de Atílio Vivácqua, IGR Vales e Café, SEBRAE/ES, proprietários rurais, condutores e operadores turísticos – o que gera tanto oportunidades de cooperação quanto conflitos de competência.

Sem instrumentos jurídicos claros (contratos, termos de anuência, servidões) e sem um modelo de governança compartilhada, o risco de bloqueios de acesso, conflitos e paralisação da operação é permanente.

 

Escuta ativa: o que dizem proprietários, condutores e instituições

Um dos pontos fortes do diagnóstico é a escuta qualitativa com quem vive, trabalha e gere o território.

Com proprietários rurais, o estudo levantou:

  • percepções sobre o turismo atual (potencial, incômodos, riscos);
  • expectativas em relação a retorno financeiro e apoio institucional;
  • preocupações com responsabilidade civil por acidentes nas propriedades;
  • interesses em integrar produção local, artesanato e serviços ao turismo.

Com condutores e operadores locais, foram explorados temas como:

  • perfil da demanda, frequência e padrões de uso;
  • percepção de riscos, protocolos de segurança e primeiros socorros;
  • necessidade de capacitação, certificação e reconhecimento formal.

Já com representantes do poder público e instituições (IEMA, Prefeitura, IGR e parceiros técnicos), o foco esteve na governança do MONAST:

  • lacunas e avanços em relação ao Plano de Manejo;
  • monitoramento de impactos de visitação;
  • instrumentos jurídicos necessários;
  • oportunidades de integração com a cadeia produtiva local e com ações de educação ambiental.

Esse conjunto de vozes permitiu que o diagnóstico fosse além do olhar físico da trilha e das estradas, incorporando dimensões sociais, econômicas e políticas que condicionam o sucesso de qualquer intervenção.

Da análise à ação: o que o diagnóstico recomenda

A síntese do diagnóstico consolida uma Matriz de Recomendações com 23 ações técnicas, distribuídas em quatro grandes blocos:

  • Segurança e riscos (intervenções estruturais no slab, alargamento de gargalos, drenagem, plano de emergências e sistema de gestão da segurança).
  • Gestão ambiental (tratamento de danos em árvores, manejo do fogo, remoção de pichações, implantação de protocolo Leave No Trace).
  • Infraestrutura e apoio (plano de manejo da trilha, projeto de sinalização, estudo de capacidade de carga, retrofit de abrigos, plano de interpretação turística, avaliação de variantes de circuito e acesso ao cume).
  • Ordenamento e governança (servidão fundiária, contrato de uso turístico, manual de normas de visitação, termo de anuência para operadores, levantamento de agências e condutores).

Algumas recomendações são classificadas como críticas, ou seja, condicionantes para que o uso público ordenado seja viável. Entre elas estão:

  • a intervenção estrutural no trecho de slab;
  • a elaboração e execução do plano de manejo da Trilha das Caveiras;
  • a criação de um termo de anuência e critérios para operadores turísticos;
  • o levantamento e registro formal de quem hoje opera o atrativo.

Próximos passos: transformar recomendações em realidade

Com o diagnóstico concluído e suas recomendações consolidadas, o trabalho entra agora em uma nova fase.

Os próximos passos envolvem a construção, de forma colaborativa, de um plano de ação para tirar as propostas do papel. Esse processo será conduzido pela equipe técnica da SubHike Brasil, em articulação com os parceiros institucionais do PROTURES MONAST e com a participação ativa da comunidade local.

A partir desse plano de ação, a prioridade será:

  • garantir condições mínimas de segurança e manejo na trilha e nos acessos;
  • corrigir passivos ambientais mais críticos;
  • formalizar os instrumentos jurídicos que sustentem o uso turístico;
  • estruturar oportunidades de geração de renda para proprietários e condutores;
  • criar um modelo de visitação que respeite os limites da natureza e valorize a experiência do visitante.

A Pedra das Caveiras tem tudo para se consolidar como um símbolo de turismo de natureza bem planejado no Espírito Santo – não apenas pela beleza da paisagem, mas pela forma como uma região inteira decide cuidar do seu território, da sua gente e do seu patrimônio natural.


 

Síntese do Diagnóstico


Este documento apresenta a síntese dos resultados e recomendações do diagnóstico situacional do atrativo da Pedra das Caveiras, que analisou a gestão atual, realizou o mapeamento de trilhas, avaliando os impactos ambientais e sociais da visitação. Neste primeiro momento, o objetivo é criar um modelo replicável de ordenamento turístico que possa ser aplicado em outros atrativos da região, garantindo a preservação do patrimônio natural e o uso responsável dos recursos.

O projeto busca equilibrar acessibilidade, educação ambiental e segurança, transformando o monumento natural em um espaço estruturado para o ecoturismo responsável, valorizando a rica biodiversidade da região.

 

Cadastro de Agências de Turismo


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O PROTURES MONAST esta realizando mapeamento estratégico para apoiar o ordenamento do uso público no atrativo. Queremos entender o perfil das empresas que atuam e as que querem atuar na região para orientar as próximas etapas de estruturação e segurança da visitação.

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